Ale My Friends Clube | Edição #6

Queridos amigos,

Não vos escrevo desde a última vez.

Se calhar é melhor assim, cansamo-nos menos e damos mais valor ao reencontro.

A ideia é sermos uns para os outros aquela água das pedras perdida no frigorífico que encontramos por acaso na manhã mais seca da ressaca em que só queremos um funeral rápido e sem missa. Já vos aconteceu acordar ressacados e pensar – foda-se, não morri – e agora tenho de levar comigo e com as pessoas, o desequilíbrio osmótico, o sol ao alto e o chamamento tácito do telefonema ao chefe a dizer que há viroses na escola dos putos e sentiste a tripa a espirrar e é melhor não arriscar e, principalmente, porque epá..não dá?

E sinceramente, “quer dizer, isto tudo vale o quê, afinal?” (aquela angústia existencial que desorienta todo o ressacado que se preze) Ninguém sabe dizer, mas independentemente da bagagem todos continuamos a amar beber bem e a aprender a sofrer depois. O Caetano pergunta “para quê rimar amor e dor”? Boa pergunta, não sei a resposta (não é suposto haver). Parece parvo, mas sei que vamos continuar a tentar fazê-lo porque não vejo caminhos alternativos válidos. Ou minimamente divertidos. Para ser mais claro e menos armado ao pingarelho com frases compridas: vão amar beber este pacote de enfiada, vão sofrer um pouco no dia seguinte, mas vão querer fazer a mesma coisa com o próximo. Foi também uma frase comprida, mas se isto estiver a correr bem não vão reparar.

Tenho, no entanto, outras boas notícias. O Covid está quase de rastos com a fúria lusa do almirante camuflado, o Moedas vai acabar com as ciclovias, a Merkel vai pôr trezentos tailleurs à venda no OLX, o Cristiano vai demolir a marquise, a Maddie continua feliz longe dos pais, a saudosa irmã Lúcia vê nossa senhora tão bem agora como via há 70 anos/dioptrias atrás, o Bolsonaro continua a ser execrável, ofereceram-me um livro do desenrolhado Carlos Castro chamado “Solidão Povoada”, e o pacote deste mês é maravilhoso. Vamos a ele!

Como anteriormente prometido, revisitamos a Luzia e as suas maravilhosas cervejas especiais da Bairrada. Propomos duas cervejas “sour”, de acidez fina e complexa, muito frutadas. Uma com beterraba e morango, a outra com maracujá. Ambas deliciosas, perfeitas para acompanhar leitão ou outros mamíferos jovens.

Da Vadia, uma das primeiras cervejeiras independentes portuguesas, incluímos duas lagers fortes mas muito fáceis de beber. Uma doppelbock maltada, caramelizada, muito gulosa, e uma baltic porter estupenda. Um estilo que combina os sabores achocolatados e densos de uma porter inglesa, com a elegância e leveza de uma schwarzbier alemã. Feita em Ossela, Oliveira de Azeméis. Como o mundo é pequeno.

Os extraordinários Piratas Cervejeiros, de Sintra/Amadora, presenteiam-nos com um exemplar magnífico de um estilo pouco reproduzido mas muito agradável. A Exsillium I é uma patersbier, uma trappist single. Uma das versões mais leves das cervejas produzidas nos mosteiros trapistas, leve, seca e frutada. Uma cerveja com enorme potencial gastronómico, óptima para acompanhar refeições. Ou crianças, segundo alguns monges.

Revisitamos a vizinha Oitava Colina que nos traz três beldades. A Joe da Silva, american pale ale fresquíssima, a Musgueira – Brut IPA – uma india pale ale seca e refrescante, e uma clássica Bitter de estilo inglês. Como sempre, como dantes, cervejas fantásticas.

Da MUSA incluímos três regressos requisitados e uma novidade, todas cabeças de cartaz que já deviam fazer parte da roda dos alimentos. Frank APA, a nossa pale ale favorita; Psycho Pilsner - uma pilsner de estilo alemão -  amarga e seca como a sogra do Helmut Kohl; a Blondie, a nossa blonde ale do dia-a-dia, descomplicada e funcional; e a premiada Saison O´Connor, na sua versão mais kitsch, de boina dourada. A única quadratura possível.

Espero que gostem muito!

Um grande abraço,

Pedro Lima

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